domingo, 10 de fevereiro de 2008

América sem Norte

A veia paulista da Chico's Bar Editora e Confederadas manda-nos um texto local... atentemo-nos:



América sem norte

Especialista em geopolítica, Parag Khanna diz que a hegemonia dos EUA expirou. Agora é disputar o mundo, corpo a corpo, com novas potências

O indiano Parag Khanna, de 30 anos, é pesquisador sênior do American Strategy Program (Programa de Estratégia Americano) da New American Foundation. Durante dois anos, viajou por 45 países localizados em regiões estratégicas do planeta, como Europa Oriental, Ásia Central, América do Sul, Oriente Médio e Sudeste Asiático. Parag queria saber como esses lugares, que chama de países do Segundo Mundo, reagem ao crescimento da China e da União Européia e ao declínio dos Estados Unidos. Suas conclusões estão no livro The Second World: Empires and Influence in the New Global Order (em tradução livre, “O Segundo Mundo: Impérios e Influência na Nova Ordem Global”), que será lançado no Brasil pela Editora Intrínseca no segundo semestre deste ano. O artigo abaixo, publicado em The New York Times, foi adaptado do livro.

Se você ligar a TV hoje e pensar que está em 1999, será perdoado. Democratas e republicanos discutem onde e como intervir, se devem agir sozinhos ou com aliados e que tipo de mundo os Estados Unidos deveriam liderar. Os democratas acham que podem apertar o botão “reiniciar”. Os republicanos acreditam que o caminho é o moralismo apoiado pela força. É como se a primeira década do século 21 não tivesse existido - e quase como se a própria história não existisse. Mas a distribuição do poder se alterou de maneira fundamental ao longo dos dois mandatos presidenciais de George W. Bush graças a suas políticas e, mais significativamente, apesar delas. Talvez a melhor maneira de entender como a história avança rápido seja olhar adiante.

O ano é 2016 e o governo de Hillary Clinton, John McCain ou Barack Obama se aproxima do fim do segundo mandato. Os EUA se retiraram do Iraque, mas mantêm cerca de 20 mil soldados no Estado independente do Curdistão, navios de guerra ancorados em Bahrein e uma presença aérea no Catar. O Afeganistão está estável. O Irã é uma potência nuclear. A China absorveu Taiwan e amplia sua presença naval no Pacífico e, a partir do porto paquistanês de Gwadar, no Mar Arábico. A União Européia abrange bem mais de 30 membros e conta com o fornecimento seguro de petróleo e gás do norte da África, da Rússia e do Mar Cáspio, assim como quantidades substanciais de energia nuclear. A posição dos EUA no mundo continua em constante declínio.

Por quê? Nossa missão não era recuperar os laços com a ONU e reafirmar para o mundo que os EUA podem - e devem - conduzi-lo à segurança e à prosperidade coletivas? De fato, a imagem dos EUA pode ou não ter melhorado, mas isso significa pouco. Condoleezza Rice declarou que os EUA não têm “inimigos permanentes”, mas também não têm amigos permanentes. Muitos viram as invasões do Afeganistão e Iraque como símbolos de um imperialismo americano global; na verdade foram sinais de estresse excessivo. As despesas debilitaram as Forças Armadas americanas e cada asserção de poder deixou o país com menos resistência contra redes terroristas, grupos insurgentes e armas “assimétricas”, como os homens-bomba. O momento unipolar dos EUA inspirou contramovimentos financeiros e diplomáticos para impedir os americanos de construírem uma ordem mundial alternativa. Essa nova ordem global chegou e é muito pouco o que Hillary, McCain ou Obama possam fazer para conter seu crescimento.

No melhor dos casos, a fase unipolar dos EUA durou toda a década de 90, mas esse também foi um período sem rumo. O “dividendo da paz” pós-Guerra Fria nunca se transformou numa ordem liberal global sob a liderança americana. Agora, em vez de sentar sobre o globo, estamos competindo e perdendo, num mercado geopolítico, ao lado de outras superpotências: União Européia e China. Essa é a geopolítica no século 21: as novas Big Three (As Três Grandes). Não a Rússia, um espaço cada vez mais administrado pela Gazprom.gov. Não a Índia, décadas atrás da China em desenvolvimento e apetite estratégico. As Big Three estabelecem as regras - as suas regras -, e nenhuma delas predomina. Os outros devem escolher quem seguir neste mundo pós-americano.

Em eras anteriores, o equilíbrio esteve entre potências européias que partilhavam uma cultura. A Guerra Fria não foi realmente uma batalha Leste/Oeste; foi uma disputa sobre a Europa. Hoje, pela primeira vez na história, o que temos é uma batalha multipolar, de civilizações múltiplas.

Em Bruxelas, capital da Europa, tecnocratas, estrategistas e legisladores entendem cada vez mais que sua função é manter o equilíbrio global entre EUA e China. Os europeus jogam dos dois lados e, se atuam bem, os benefícios são enormes. É uma tendência que sobreviverá ao presidente francês Nicolas Sarkozy, autodenominado “amigo dos EUA”, e à chanceler alemã Angela Merkel, independentemente de ela visitar o rancho de Crawford. O fato de a Europa ainda não ter um exército comum pode tranqüilizar os conservadores americanos; a questão é que a Europa não precisa de um. Os europeus usam a inteligência e a polícia para prender radicais islâmicos, a política social para tentar integrar populações muçulmanas rebeldes e a força econômica para incorporar a antiga União Soviética. O investimento anual europeu na Turquia também cresce, trazendo-a mais perto da União Européia. E a cada ano um novo oleoduto é aberto, transportando petróleo e gás da Líbia, Argélia ou Azerbaijão para a Europa. Que outra superpotência cresce na média de um país por ano, com outros esperando na fila e implorando para se juntar?

A EUROPA É DE VÊNUS

Numa frase famosa, Robert Kagan disse que os EUA são de Marte e a Europa, de Vênus, mas na realidade a Europa é mais Mercúrio - carregando consigo uma enorme carteira de dinheiro. O mercado da União Européia é o maior do mundo, as tecnologias européias cada vez mais estabelecem o padrão global e os países europeus fornecem a maior ajuda ao desenvolvimento. Muitos americanos zombaram da introdução do euro, alegando que levaria o projeto europeu ao colapso. Hoje, porém, os exportadores de petróleo do Golfo Pérsico convertem seus ativos financeiros em euro, e o presidente Mahmoud Ahmadinejad propôs à Opep que o preço do seu petróleo não seja mais cotado em dólares. O presidente Hugo Chávez também sugeriu euros. Não ajudou o fato de o Congresso expor suas cores protecionistas bloqueando o acordo sobre os portos de Dubai em 2006. Com Londres voltando a ser a capital financeira do mundo, em termos de registros de ações na sua Bolsa, não surpreende que os novos fundos de investimentos estatais da China instalem ali os seus escritórios, e não em Nova York. Ao mesmo tempo, o quinhão de reservas cambiais globais dos EUA caiu para 65%. Gisele Bündchen exige ser paga em euros, enquanto que Jay-Z se afogou em notas de 500 euros num vídeo recente.

Enquanto os EUA se atrapalham na construção de uma nação, a Europa aplica seu dinheiro e capital político em países periféricos que entram na sua órbita. Muitas regiões pobres do mundo perceberam que querem o sonho europeu, não o americano. A África deseja uma União Africana como a Européia. No Oriente Médio, os ativistas almejam uma democracia parlamentar como a da Europa, não um governo no estilo americano. Muitos estudantes estrangeiros rechaçados depois de 11 de setembro estão hoje em Londres e Berlim. O número de chineses estudando na Europa é duas vezes maior do que nos EUA. Nós não os educamos, assim não podemos reivindicar seus cérebros ou sua lealdade como ocorreu em décadas passadas. De maneira geral, os EUA controlam instituições herdadas que poucos parecem querer - como o Fundo Monetário Internacional -, enquanto a Europa cria instituições sofisticadas, de acordo com o seu modelo. Os EUA têm dificuldades mesmo quando dominam reuniões de cúpula, como a malograda Área de Livre Comércio das Américas (Alca), quando não são sequer convidados, como ocorreu com a nova Comunidade do Leste da Ásia, a resposta da região à APEC dos Estados Unidos.

IMPÉRIO DO MEIO

A Comunidade do Leste Asiático é um exemplo de como a China também está ocupada em restaurar seu lugar como Império do Meio. Por todo o globo envia dezenas de milhares dos seus próprios engenheiros, construtores de hidrelétricas, especialistas em ajuda ao desenvolvimento e militares dissimulados. Na África, a China não é apenas uma compradora de energia; também faz grandes investimentos estratégicos no setor financeiro. O mundo encoraja sua ascensão espetacular, evidenciada pela fatia das operações comerciais no seu PIB. E ela está exportando armas em quantidades que lembram a União Soviética durante a Guerra Fria, encurralando os EUA, ao mesmo tempo que preenche os vazios que consegue encontrar. Todos os países considerados renegados pelos EUA desfrutam de uma corda salva-vidas estratégica, econômica ou diplomática da China, e o Irã é o exemplo mais destacado.

Sem dar um tiro, a China faz nas suas periferias ocidental e sul o que a Europa consegue a leste e a sul do continente. Auxiliada por uma diáspora de 35 milhões de pessoas bem colocadas nas prósperas economias do Leste da Ásia, surgiu uma Esfera de Co-Prosperidade da Grande China. Como os europeus, os asiáticos se afastam das incertezas econômicas dos EUA. Sob patrocínio japonês, pretendem erigir seu próprio fundo monetário regional, enquanto a China reduziu as tarifas e aumentou os empréstimos para seus vizinhos do Sudeste Asiático. O comércio dentro do triângulo formado por Índia, Japão e Austrália - do qual a China é o centro - ultrapassou as trocas comerciais através do Pacífico.

Ao mesmo tempo, um grupo de instituições diplomáticas e de segurança asiáticas vem sendo criado de dentro para fora, e com isso o domínio dos EUA da Orla do Pacífico tem diminuído. Da Tailândia à Indonésia e à Coréia, nenhum país - amigo dos EUA ou não - deseja que tensões políticas perturbem seu crescimento econômico. É um fenômeno curioso: pequenos Estados-nação asiáticos precisam se equilibrar frente à próspera China, mas cada vez mais cerram fileiras em torno dela, pelo orgulho cultural asiático e pela compreensão da realidade histórico-cultural do predomínio chinês. E nos antigos países soviéticos da Ásia Central a China é o novo peso pesado, atraindo para sua órbita microestados quase extintos como Quirguistão e Tajiquistão, além do Casaquistão. A Organização de Cooperação de Xangai açambarca esses homens fortes da Ásia Central, China e Rússia e poderá se tornar a “OTAN do Leste”.

As Big Three são, no final, as Aminimigas. A geopolítica do século 21 vai ser semelhante ao 1984 de George Orwell, mas, em vez de três potências mundiais (Oceania, Eurásia e Leste da Ásia), teremos três pan-regiões periféricas, zonas longitudinais dominadas pelos EUA, Europa e China. Cada pan-região pode ser auto-suficiente e criar uma base de poder a partir da qual pode se introduzir no terreno alheio. Mas, num mundo globalizado e que vem encolhendo, nenhuma geografia é sagrada. Aberta ou despercebidamente, China e Europa irão se intrometer no domínio dos EUA, China e EUA competirão pelos recursos africanos na periferia sul da Europa, e EUA e Europa procurarão tirar proveito do rápido crescimento econômico de países dentro da esfera de influência da China. A globalização é a arma escolhida. O principal campo de batalha é o que chamamos de “Segundo Mundo”.

Existem muitas estatísticas que ainda afirmam a predominância global dos EUA: as despesas militares, a participação na economia global e similares. Mas existem estatísticas e existem tendências. Para compreender como o poder americano declina rapidamente, passei os últimos dois anos viajando por cerca de 40 países nas cinco regiões mais estratégicas do planeta. São países que não estão no centro do Primeiro Mundo da economia global, nem na periferia do terceiro. Ficando ao lado e entre as Big Three, são Swing States (Estados indefinidos), que vão determinar quais superpotências estarão em vantagem na próxima geração da geopolítica.

Os países do Segundo Mundo considerados chave, na Europa Oriental, Ásia Central, América do Sul, Oriente Médio e Sudeste Asiático, são mais do que apenas “mercados emergentes”. Se incluirmos a China, eles detêm a maior parte das poupanças e reservas cambiais e seu poder de gasto os transforma nos mais importantes novos mercados de consumo e motores do crescimento global - não substituindo, mas também não dependendo dos EUA. Os países do Segundo Mundo estão se tornando rapidamente centros de petróleo e madeira, manufatura e serviços, empresas aéreas e infra-estrutura - tudo num mercado geopolítico em que sua lealdade está para ser conquistada por qualquer das Big Three, e todos eles ao mesmo tempo. Têm importância pelo seu peso econômico, estratégico ou diplomático, e a sua decisão de pender na direção dos EUA, da União Européia ou da China tem grande influência sobre o que outros, na sua região, decidirão fazer.

Comecemos com o caso mais difícil: a Rússia. Aparentemente estabilizada sob a oligarquia Kremlin-Gazprom, por que não é uma superpotência, mas um Estado do Segundo Mundo indefinido? Apesar de toda a sua musculatura, a Rússia também está desaparecendo. Sua população declina a uma taxa de meio milhão de cidadãos por ano, ou mais, o que significa que não será muito maior do que a Turquia por volta de 2025, espalhada por uma região tão vasta que, como país, não terá mais sentido. As migrações forçadas de povos da Sibéria, na era soviética, hoje retomam o curso oposto, com os filhos desses migrantes indo para o ocidente, para climas mais modernos e toleráveis. Esse espaço está sendo preenchido por centenas de milhares de chineses, literalmente devorando, saqueando, comprando e mais ou menos anexando o extremo oriente da Rússia por causa da madeira e outros recursos naturais. E a Europa, embora parecesse ameaçada pela diplomacia russa, baseada no petróleo, empreende uma aquisição a longo prazo do país, cuja economia continua quase do tamanho da França. Em particular, certas autoridades da União Européia dizem que a anexação da Rússia é apenas uma questão de tempo. Nas próximas décadas, longe de restaurar o poder da era soviética, ela terá de decidir se pretende existir pacificamente como um ativo para a Europa, ou se prefere ser uma petro-vassala da China.

A Turquia também é troféu emblemático do Segundo Mundo. Basta um simples olhar para sua resplandecente linha para perceber que, mesmo que não se torne um membro de fato da UE, é um país cada vez mais europeizado. Recebe mais de US$20 bilhões de investimentos estrangeiros e mais de 29 milhões de turistas a cada ano, a maioria europeus. Noventa por cento da diáspora turca vive na Europa Ocidental e envia para casa mais de US$ 1 bilhão por ano na forma de investimentos e remessas em dinheiro. Esse capital vem financiando o desenvolvimento para o leste, com novos projetos de construção, abertura de fábricas e escolas. Com a entrada da Romênia e da Bulgária na União Européia há um ano, a Turquia hoje, fisicamente, faz fronteira com a UE, simbolizando como o país se torna parte da superpotência européia.

E O CASAQUISTÃO?

Diplomatas ocidentais têm familiaridade histórica, embora dramática e tumultuada, com a Rússia e a Turquia. E no que diz respeito a esse grupo de países sem saída para o mar, ricos em petróleo e governados por autocratas? Enquanto a China compra mais petróleo do Casaquistão e os EUA tentam realizar acordos de defesa com esse país, a Europa oferece investimentos sustentados. Um exemplo de até onde os estrangeiros podem chegar para manter boas relações com o presidente Nursultan Nazarbayev é a atual negociação entre um consórcio de gigantes ocidentais do setor energético e a empresa petrolífera estatal do Casaquistão para a abertura de um enorme campo de petróleo em Kashagan, no Mar Cáspio. O consórcio injeta US$ 4 bilhões, além de uma grande transferência de ações, como indenização pelos atrasos na exploração e produção - e assim mesmo o Casaquistão não está satisfeito. A lição oferecida pelo Casaquistão, e pelo seu vizinho também estratégico mas bem menos previsível, o Usbequistão, é de o quão inconstante o Segundo Mundo pode ser, provocando dores de cabeça e maremotos em todas as direções.

A globalização levou o mercado geopolítico direto para o quintal dos EUA, corroendo rapidamente dois séculos de Doutrina Monroe. Na verdade, os EUA só tiveram a última palavra na América Latina quando seus vizinhos do sul ainda careciam de uma visão própria. Hoje têm pelo menos dois contestadores não americanos: a China e Chávez. Hugo Chávez, o coronel do país, pode demorar décadas para ser derrubado ou pode ser morto, mas blefou com os EUA e venceu, mudando as regras das relações Norte-Sul no hemisfério ocidental. Financiou líderes de esquerda do continente, ajudou a Argentina e outros a pagar e expulsar o FMI e patrocinou pelo continente um programa de troca de petróleo, gado, trigo e funcionários públicos, lembrando àqueles que o desprezam que pode fazer frente à grande potência do norte. Chávez não tem se apoiado apenas nos altos preços do petróleo. Ele conta com o apoio tácito da Europa, que ainda é a maior investidora do país, e a intervenção prática da China, que vem restaurando as torres de perfuração de petróleo dilapidadas da Venezuela.

Mas o desafio que Chávez representa para os EUA é ideológico, enquanto que o deslocamento do Segundo Mundo é realmente estrutural. É o Brasil que ressurge como o líder natural da América do Sul. Junto com Índia e África do Sul, assumiu a liderança nas negociações sobre o comércio global, contestando as tarifas sobre o aço dos EUA e os subsídios agrícolas da Europa. Geograficamente, o Brasil está tão próximo da Europa como dos EUA e é tão ávido para fabricar carros e aviões para os europeus como para exportar soja para os americanos. Além disso, embora tenha sido um leal aliado dos americanos na Guerra Fria, não perdeu tempo para declarar uma “aliança estratégica” com a China. Suas economias se complementam, com o Brasil vendendo ferro, minério, madeira, zinco, carne, leite e soja para a China, e a China investindo nas hidrelétricas, siderúrgicas e fábricas de sapato brasileiras. As ambições de ambos podem em breve alterar a própria geografia das suas relações, com o Brasil se empenhando para a construção de uma Estrada Transoceânica do Amazonas, através do Peru, para a Costa do Pacífico, facilitando o acesso para os cargueiros chineses. Durante séculos a América Latina nunca foi vista em primeiro lugar, mas no século 21 todos competem pelos seus recursos, e ninguém está muito distante.

O Oriente Médio, que se estende do Marrocos ao Irã, fica entre os centros de influência das Big Three e tem o maior número de Estados indefinidos. Não há dúvida de que a distensão com a Líbia, intermediada pelos EUA e Grã-Bretanha depois que Muamar Kadafi declarou que abandonaria suas iniciativas nucleares em 2003, em parte foi motivada pela crescente demanda de energia de um vizinho mediterrâneo próximo. Mas Kadafi não vendeu tudo. Ele e seus assessores parcelaram os contratos de produção, dividindo-os entre as diversas gigantes americanas, européias, chinesas e asiáticas da área petrolífera. Consciente da exploração do mundo árabe pelas empresas petrolíferas ocidentais, aumentou a pressão sobre os estrangeiros para dividirem mais a receita com seu governo, ajustando os contratos, arredondando os números à sua vontade e ameaçando com expropriações.

A Arábia Saudita, que por alguns anos continuará sendo a principal produtora de petróleo, está disponível para quem quiser. Nas últimas décadas, a participação americana nos investimentos diretos estrangeiros no reino saudita moldou decisivamente a política externa do país, mas hoje a monarquia mostra-se bem mais prudente, procurando atrair investimentos europeus e asiáticos. Mas não se engane: os EUA nunca foram todo-poderosos apenas por causa do seu predomínio militar. A influência estratégica precisa ter base econômica. Um importante denominador comum entre os principais países do Segundo Mundo é a necessidade de cada uma das Big Three injetar dinheiro onde está envolvida.

Apesar de todo o seu antagonismo histórico com a Arábia Saudita, o Irã também assume o papel de Estado indefinido. Sua diplomacia não só criou a discórdia entre EUA e União Européia no caso das sanções; também cortejou a China, nutrindo um relacionamento que remonta à Estrada da Seda. Hoje o Irã representa o quadrado final do jogo de amarelinha dos chineses, manobrando para chegar ao Golfo Pérsico sem depender do limitado Estreito de Málaca. Vários anos de negociações culminaram em dezembro com a Sinopec firmando um acordo para desenvolver o campo petrolífero de Yadavaran com mais investimentos da China. Quanto mais tempo durarem as negociações com a Agência Internacional de Energia, maior a probabilidade de o Irã manter-se auto-suficiente, sem investimentos ocidentais.

O interessante é que são exatamente os países produtores de petróleo muçulmanos - Líbia, Arábia Saudita, Irã, Casaquistão (grande maioria muçulmana) e Malásia - que parecem ter ampliado melhor seus alinhamentos, combinando as Big Three simultaneamente: obtendo o que desejam e ao mesmo tempo repelindo a intrusão de outros. Os EUA podem buscar aliados muçulmanos, pensando na sua imagem e na “guerra contra o terror”, porém esses mesmos países parecem fazer parte do que Samuel Huntington chamou de “conexão islâmico-confuciana”. Além disso, a China vem mantendo simultaneamente laços positivos com pares rivais regionais: Venezuela e Brasil, Arábia Saudita e Irã, Casaquistão e Usbequistão, Índia e Paquistão. A esta altura, os diplomatas ocidentais só tiveram coragem de denunciar, discretamente, as políticas de ajuda chinesas e suas alianças, mas estão longe de poder fazer algo a respeito.

Isso ocorre mais profundamente no Sudeste Asiático. Alguns dos mais dinâmicos países da região, como Malásia, Tailândia e Vietnã, desempenham o papel de pretendentes a superpotência com uma inteligência excepcional. Malásia e Tailândia ainda realizam exercícios militares conjuntos com os EUA, mas também compram armas e têm tratados de defesa assinados com a China, incluindo o Tratado de Amizade e Cooperação pelo qual as nações asiáticas comprometem-se a não se agredirem mutuamente. Como um diplomata malásio me explicou, sem um mínimo de gracejo, “criar uma comunidade entre os amarelos e pardos é fácil, mas não com os brancos”. Surpreendentemente, o Vietnã, envolvido em histórias violentas com EUA e China, é quem está mais ávido para firmar contratos de defesa com os americanos (e uma nova fábrica de microchips da Intel) para manter seu equilíbrio estratégico. O Vietnã também não pretende cair na esfera de influência de nenhuma superpotência.

O CINTURÃO ANTIIMPERIAL

O novo mapa multicolorido de influência é muito confuso. Mubarak (presidente do Egito), Musharraf (do Paquistão), Mahathir (da Malásia) e um conjunto de líderes do Segundo Mundo estabeleceram um novo padrão de proezas manipuladoras: todos dizem que os EUA são seus amigos, e ao mesmo tempo cortejam ativamente todos os lados.

Além disso, muitos países do Segundo Mundo estão bastante confiantes para formar cinturões antiimperiais, criando eixos diplomáticos, tecnológicos e comerciais do Brasil à Líbia, ao Irã e à Rússia. Os países do Segundo Mundo estão usando cada vez mais fundos soberanos (muitas vezes financiados pelo petróleo) equivalentes a trilhões de dólares para mostrar sua importância, chegando mesmo a intimidar empresas e mercados do Primeiro Mundo. Os Emirados Árabes Unidos (particularmente representado pela sua capital, Abu Dabi), a Arábia Saudita e a Rússia sobem rapidamente na escala dos grandes possuidores de reservas cambiais e dificilmente vendem suas ações de bancos ocidentais (que se tornaram baratas de repente) e empresas de petróleo. O fundo soberano de Cingapura segue o mesmo caminho.

O que observamos nestes e numa dezena de outros é que a globalização não é sinônimo de americanização. Enquanto os países europeus redistribuem a riqueza para manter padrões de vida de Primeiro Mundo, as empresas estatais dos países do Segundo Mundo ou rechaçam, ou se apoderam das empresas americanas, deixando seus funcionários sozinhos. A prioridade do Segundo Mundo não é tornar-se um novo EUA, mas vencer por qualquer meio.

A ascensão da China no Oriente e da União Européia no Ocidente alterou um globo que até recentemente gravitava em torno do pró ou antiamericano. À medida que os espíritos da Europa e da China se elevaram na direção de novos domínios de influência, o espírito americano enfraqueceu. A União Européia pode apoiar os princípios das Nações Unidas, que os EUA outrora dominaram, mas por quanto tempo conseguirá manter isso à medida que seus próprios padrões sociais se elevam bem acima desse denominador comum mínimo? E por que China e outros países asiáticos deveriam ser “participantes responsáveis”, nas palavras do ex-vice secretário de Estado, Robert Zoellick, numa ordem internacional liderada pelos americanos, quando eles não têm assento na mesa em que as regras são elaboradas? Mesmo com os EUA avançando aos tropeços na direção do multilateralismo, os outros estão saindo do jogo americano e seguindo suas próprias regras.

O auto-enganador universalismo do império americano - segundo o qual o mundo, intrinsecamente, necessita de um único líder e a ideologia liberal americana precisa ser aceita como base da ordem global - resultou, paradoxalmente, no fato de que os EUA são hoje uma superpotência cada vez mais isolada. Da mesma maneira que existe um mercado geopolítico, existe um mercado de modelos de sucesso para o Segundo Mundo copiar, e não apenas o modelo chinês de crescimento econômico sem liberalização política. Como observou o historiador Arnold Toynbee há meio século, o imperialismo ocidental uniu o globo, mas não garantiu que o Ocidente o dominasse para sempre - material ou moralmente. Apesar da “ilusão de imortalidade” que aflige os impérios globais, a única regra confiável da história são seus ciclos de ascensão e declínio, e, como Toynbee observou, a única direção do apogeu do poder é a da queda.

O que torna os EUA únicos nessa competição não são seus ideais democráticos liberais - a Europa hoje pode ser uma melhor representante -, mas sua geografia. O EUA estão sós, enquanto que Europa e China ocupam as duas extremidades da grande massa de terra continental eurasiana, o centro eterno de gravidade da geopolítica. Quando os EUA dominaram a Otan e lideraram um rígido sistema de alianças no Pacífico com Japão, Coréia do Sul, Austrália e Tailândia, conseguiram realizar a tarefa hercúlea de administrar o mundo do lado deles. Hoje, foram rejeitados pela União Européia e a Turquia, mal acolhidos em grande parte do Oriente Médio e perderam muito da confiança do Leste da Ásia. “Império fortuito” ou não, precisam rapidamente se adaptar a essa realidade. Manter o império não vale a pena, e a história promete que esse empenho será um fracasso. Já está fracassando.

O mundo seria ou não mais estável se os EUA conseguissem ser novamente aceitos como principal organizador? É muito tarde para se perguntar, porque a resposta já se revela aos olhos. Nem a China, nem a União Européia substituirão os EUA como líder único do mundo; porém, os três lutarão constantemente para conseguir influenciar sozinhos e se equilibrar um com o outro. Acredito que uma paisagem multicultural, complexa, repleta de desafios transnacionais, do terrorismo ao aquecimento global, é completamente inadministrável por uma única autoridade, sejam EUA ou Nações Unidas.

A globalização resiste a praticamente qualquer tipo de centralização. Em vez disso, o que se observa gradativamente nas negociações sobre mudanças climáticas (como em Bali, em dezembro) e precisamos ver mais, no campo das conversações sobre prevenção da proliferação nuclear e reconstrução de Estados falidos, é um sentido muito maior de divisão de trabalho entre as Big Three, uma divisão concreta do fardo, pois elas serão julgadas não pela sua retórica, mas pelas responsabilidades que assumirem. O arbitrariamente composto Conselho de Segurança não é lugar para se discutir uma divisão de trabalho como essa, tampouco qualquer dos órgãos multilaterais sobrecarregados de votações e opiniões dissonantes e irrelevantes. Os grandes temas devem ser resolvidos pelas Big Three entre elas.



In: Estado de São Paulo, 10/02/08

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

O dedo de Fogo de DEUS!

Atendendo a pedidos, cá está o meu texto diretamente vindo do Old Pink Dog Bar.

Agradeço à Chico's Bar editora e Confederadas pelo espaço cedido gentilmente! Assim...

Outro dia me disseram sobre um acordo entre o governo federal e o Vaticano sobre tornar o catolicismo a religião oficial do Brasil (vá lá, eu não to totalmente interado no assunto, o que sei é algo superficial, porém o suficiente para a revolta aqui comentada), dai dias depois alguém próximo disse que uma certa instituição de ensino não quis nem olhar o seu currículo por se tratar de uma pessoa que não passou por todo o ensino fundamental e médio nesta mesma instituição (o detalhe que vale ressaltar deste segundo caso é que a instituição tem fundamentos religiosos e cobra pra ensinar, diga-se de passagem, cobra muito caro). A diretora desta instituição simplesmente afirmou que só contratava pessoas que tivessem por ali passado. Naquele exato momento veio-me à cabeça o seguinte pensamento: "putz... e se de repente todas as pessoas que estudaram nesta merda fossem do pior tipo que corrompe a sociedade? A digníssima diretora ver-se-ia na situação de contratar gente da pior espécie pra tratar com seus queridos aluninhos!". Em seguida comecei a pensar sobre a posição de alguns fanáticos quanto a sua religião de escolha. Pois bem, afirmo-me ateu, não tenho sério problemas com quem crê em algo. O meu problema é com este fanatismo desmedido (por isto mesmo fanatismo) que faz seus seguidores empurarrem (ao menos tentar empurrar) goéla a baixo uma coisa que pra mim não faz sentido algum, a religião. Não é questão aqui se ela é boa ou ruim, a questão é a tentativa de supressão da minha vontade e escolha. Tal ato não aceitarei de forma alguma, pois preso pela minha individualidade! É, sobretudo, difícil a aceitação deste tipo de atitude num Estado (supostamente) laico. Vem-me à memória agora por exemplo quando professorinhas bondosas pediam que os alunos ficassem de pé para rezar o Paio nosso... Daí mais uma vez eu me recusava por ver minha individualidade ser destroçada. Desde quando que sou católico pra rezar no começo da aula? E o budista como que fica? Sem contar no muçulmano, no agnóstico, espirita, mormom, sei lá, imaginem esse sem número de religiões por ai que não precisam necessariamente rezar antes do início da aula. Além do mais, rezava-se numa instiuição mantida pelo Estado dito laico... Daí deixa-se criar outro sem número de instituições de educação filiadas à religião, obviamente cobrando um absurdo para que seus alunos possam ter "o melhor" que há no mercado divino...Mas vá lá, quisera eu que Deus realmente existisse e se assim procedesse não fosse tão bom quanto dizem que é (ou ao menos pensasse como eu) e quando visse um ato como o do infeliz que pretende sobrepujar milhares de individualidades, ou o de alguém que prefere uma pessoa que foi domesticada na sua escola sobre o olhar religioso que beatifica qualquer cretino corrupto que por lá passou, ou ainda aquela querida professora infeliz que não sabe direito seu papel numa instituição laica, simplesmente descesse o seu dedo indicador da mão direita em chamas para queimar todos aqueles que infringem contra a individualidade de outrem, deixando no local onde se encontrava o infeliz pecador (era o fiel fanático no caso) apenas um buraco enorme com um singelo aviso à borda com o seguinte dizer "aqui houve um cretino fanático!".

Rudah.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Diogo, O Terrível

Atente-se para a conversa que o colunista teve com Mainardi:



É um dos meus desportos favoritos: chegar ao Brasil e falar, em tom blasé, de Diogo Mainardi. "Você leu a coluna dele na Veja? Muito boa", digo eu. O meu interlocutor cai num silêncio sepulcral. As veias do pescoço vão inchando como em certos filmes de vampirismo. O sangue concentra-se todo na cabeça. Os olhos, vermelhos e irados, saem das órbitas. A boca espuma. Os queixos tremem. Alguns levam a mão ao braço esquerdo e pedem uma ambulância. Deus do céu, eu já perdi a conta dos infartos, ou das ameaças de infarto, que a minha perversidade provocou em São Paulo e no Rio. Diogo Mainardi não é um colunista. É uma assombração.

Curioso. Irônico. Paradoxal. As mesmas pessoas que desmaiam na minha frente com o nome de Mainardi não desmaiam com uma elite política corrupta que usa dinheiro público tradução: dinheiro dos brasileiros para suas negociatas. O mal não está em quem rouba. Está naqueles que denunciam o roubo. Em condições normais, um país estaria grato aos jornalistas que vigiam e criticam o poder. Mas o Brasil não é um país normal. Aliás, Portugal também não é e pressinto aqui uma cultura histórica comum: quando um colunista abre a boca para criticar o governo, ele não critica o governo. Ele é um demente, um invejoso, um fracassado. E, em caso de discórdia, os leitores, para não falar dos colegas de ofício, não estão dispostos a contra-argumentar. Mas a censurar. O ideal não é discutir. É silenciar. Na impossibilidade de fuzilar. Curiosas mentalidades.

Às vezes pergunto se vale a pena continuar. Como Diogo Mainardi pergunta em seu último livro, "Lula é Minha Anta" (Record, 240 págs.), relato da sua odisséia anti-lulista. No livro, conta Mainardi que dedicou cerca de 5 mil horas a Lula (antes do mensalão começar). Cinco mil. Uma vida. Uma barbaridade. E quando o colunista acredita que finalmente se libertou do presidente, o mensalão estoura e Lula, como nos filmes de Coppola, volta a arrastá-lo para a velha dança. Mais 5 mil horas. Mais dez. Mais quinze.

Eu não me perdoaria. Sério. Nas milhares de horas que Mainardi perdeu com Lula, teria sido possível ler todo o Balzac, todo o Flaubert. Mas também teria sido possível viajar. Dormir. Namorar. Vadiar. Milhares horas com Lula e o PT não inspiram indignação. Inspiram compaixão.

Compaixão e irrisão. Várias vezes disse a Diogo Mainardi que ele deveria regressar à ficção. Basta ler os quatro livros publicados até ao momento ("Malthus", "Arquipélago", "Polígono das Secas", "Contra o Brasil") para entender o lugar singular do autor na prosa brasileira contemporânea. Ao resgatar a tradição satírica européia para a língua lusa, Mainardi faz o que Millôr Fernandes e Ivan Lessa fizeram antes dele: limpa o pó à gramática e confere uma vitalidade ao texto que é mortal para denunciar o ridículo da condição humana. Mas a resposta dele é sempre a mesma: "E quem paga as minhas contas?" Na conversa que tivemos, e que reproduzo em baixo, a pergunta é repetida. A resposta também.

Erro meu. "Lula é Minha Anta" não é apenas o resumo da batalha hilária de Diogo Mainardi para derrubar Lula. É também o retrato político de um país que ganha contornos grotescos, muito acima de qualquer ficção: na política, no jornalismo, no mundo empresarial; e nas relações promíscuas e até mafiosas que se instalam entre esses vários mundos. E, quando assim é, não existe grande espaço para prosa imaginativa. Seria inútil. Redundante. Em Inglaterra, onde a vida é previsível e civilizada (ou previsível porque civilizada), o "non sense" transferiu-se da vida para a literatura. De Jonathan Swift a Laurence Sterne, de Evelyn Waugh e Kingsley Amis, a sátira é abundante porque funciona como contraste. Mas quando a realidade já é surreal, é a realidade que se transforma em ficção. Quem precisa de livros quando basta olhar pela janela?

Mainardi olhou pela janela. Descreveu a paisagem. Mas falhou no essencial: em 2007, Lula era reeleito, ou seja, "absolvido pelas urnas", como dizem seus acólitos. Num dos melhores textos do livro, Mainardi compara-se ao Coiote do desenho animado, que persegue obsessivamente o Papa-Léguas para ser derrotado no final. Uma pena? Para o Brasil, com certeza. Para os leitores, longe disso. "Lula é Minha Anta" ficará como testemunho de uma época e exercício literário pleno de violência sarcástica. E, além disso, ninguém assiste ao desenho animado para ver o Papa-Léguas.

Olá, Diogo. Como é que você está?

Estou de bermuda e chinelo, como sempre. Na minha frente, o computador. À direita, pela janela, a praia de Ipanema. Choveu muito: mar marrom e areia cheia de protozoários. Na sala, meu caçula está com a TV ligada, assistindo a um episódio de "Little Einsteins". De vez em quando, influenciado pelo desenho, ele ergue os braços e grita: Johann Sebastian Bach! Felix Mendelssohn!

Nunca assisti a esse desenho. A minha infância foi deliciosamente corrompida pelo Walt Disney.

A minha foi miseravelmente corrompida pelo Pepe Legal.

Que memórias você tem da infância? Nada de clichês, e pode falar das empregadas.

Tive uma infância clichê. Inclusive no que se refere às empregadas.

Falando do Brasil: você já está a preparar o seu exílio na Europa?

Dependo do trabalho, e o trabalho, atualmente, está no Brasil. Já fui um imigrante brasileiro na Europa. Agora sou um retirante paraibano no Rio de Janeiro.

Isso significa que se surgir trabalho na Europa você abandona o país na hora?

Retirante só migra em período de seca.

Mas você sabe que a Europa é o último sítio do mundo, depois de Bagdá, para trabalhar.

É por isso que eu relaciono a Europa com o ócio. Ou com a literatura, que é a expressão envergonhada do ócio.

Antes de qualquer pergunta sobre o seu livro, gostei de ver nele as fotos dos seus filhos brincando com um pelúcia do Lula. Em São Paulo, um amigo mostrou-me o mesmo boneco e disse-me que tinha sido criado por um artista plástico. Ainda tentei comprar um, mas não consegui. Você sabe onde eu posso encontrar esse boneco?

Vou ver se arrumo um boneco extra.

Obrigado. Você não acha que o boneco tem uma graciosidade que falta ao presidente?

Pouco tempo atrás, acordei no meio da noite e flagrei o boneco roubando minha carteira e tentando matar o peixe no aquário.

E o que você fez? Não me diga que pediu impeachment...

Tranquei o boneco no armário da cozinha.

As crônicas de "Lula é Minha Anta" são, em resumo, a história de uma batalha: Mainardi contra Lula e Lula vitorioso, no final, com a reeleição. Você não acha que teria sido preferível ler Flaubert ou Tolstói nesse tempo todo?

No livro, sou personagem, e não autor ou leitor. Como Bouvard e Pécuchet, perdi a lavoura. Como Anna Karenina, fui esmagado por um trem.

A partir do momento em que o "mensalão" foi denunciado por Roberto Jefferson, você apostou tudo em como Lula não seria reeleito. Você não acha que foi demasiado otimista com o seu país?

Tem razão: por um breve período, fui pateticamente otimista com o Brasil. O mensalão, por suas particularidades, ofereceu uma oportunidade histórica para o país, exatamente como "mãos limpas", na Itália. Como de costume, a gente bobeou.

Você não acha que a corrupção, para os brasileiros, não é tão grave como seria para os europeus?

Corrupção é fruto de falta de democracia. Quanto mais avançada é uma democracia, menor o risco de corrupção. Uma imprensa independente ajuda a vigiar a classe política. Um judiciário independente também. Até a arte tem um papel no combate à corrupção. Ela oferece à sociedade ferramentas como iconoclastia, humor, visão crítica, senso estético, senso de proporção, agitação intelectual, inquietude existencial tudo isso aumenta nossa desconfiança e nossa insatisfação em relação às pessoas em geral e aos políticos em particular.

Então o problema central talvez não seja Lula, mas o Brasil.

Exatamente. Lula --o meu Lula-- é metafórico. Talvez até metonímico. Ele representa o que o país tem de pior.

Eu estive no Brasil em dois momentos marcantes dos últimos anos: quando o mensalão estava no auge e nas últimas eleições. E fiquei pasmo com pessoas educadas, fluentes e letradas que diziam que votariam em Lula, não em Alckmin?

Pessoas educadas, fluentes e letradas que votam em Lula? Não conheço. Acho que você está freqüentando demais os jornalistas da Folha de S.Paulo.

Qual a responsabilidade da oposição nesse clima favorável a Lula? Você acha que o "impeachment pelas urnas", que chegou a ser defendido por Fernando Henrique Cardoso, foi ingenuidade ou estupidez?

Fernando Henrique Cardoso não é ingênuo nem estúpido. Acho que os oposicionistas queriam tomar o lugar do Lula sem mexer nos esquemas de corrupção que os beneficiaram no passado e que podem beneficiá-los no futuro.

Ou seja, a oposição é tão corrupta como o presidente?

O lulismo é muito mais perverso: transformou a corrupção em plataforma de governo.

Alckmin: o que correu mal? Você teria votado noutro candidato sem ser de nariz tapado?

Eu não voto. Nem de nariz tapado. Desde o começo, defendi o "impeachment" de Lula. O julgamento do lulismo deveria ter sido político e criminal, e não apenas eleitoral.

Mas você confessou que iria votar Alckmin de nariz tapado. Nem assim foi votar?

Quando percebi o jogo da oposição, avisei que a tese do "impeachment pelo voto" abria a perspectiva de uma "absolvição pelo voto". Como sempre fui contrário a uma absolvição, torci pela eleição do Alckmin. Só não votei nele --e não voto em ninguém-- porque não tenho domicílio eleitoral.

Você é particularmente duro com o jornalismo brasileiro, que teria sido cúmplice de Lula. "O presidente manda. O jornalista publica. O contribuinte paga", eis o aforismo. Depois do mensalão e apesar da reeleição, você acha que mudou alguma coisa?

Agora o contribuinte sabe o que está pagando.

Um de seus melhores textos, "Minha Vida de Coiote", é o retrato de como perseguir Lula se transforma sempre num desastre para o perseguidor como na história do Coiote e do Papa-Léguas. Com todos os processos, ameaças e xingamentos, você nunca pensou simplesmente: "que se dane tudo"?

Como o Papa-Léguas, eu sempre acho que meu próximo plano vai dar certo.

Existe alguma coisa de positivo no Brasil para você? Ironicamente, lendo o seu livro, a coisa mais positiva é a Justiça, que o absolvia nos processos.

O que eu mais gosto no Brasil é minha casa. Fora da minha casa, minha rua, no máximo até a esquina. Institucionalmente, sim: a melhor chance do Brasil --quem sabe a única-- está nos tribunais.

Isso não é um paradoxo? Como explicar que tudo corra mal, exceto a Justiça?

Tenho de apelar para Montesquieu. Sabe como é: aquele lero-lero de separação dos poderes. Como todo o resto, a Justiça pode ser uma porcaria, mas as leis não são. Há um monte de bons juízes e promotores por aí, aplicando-as com rigor.

Por que motivo os petistas nunca acertam com o seu nome? É sempre "Diego", "Diego".

O petismo tem um problema com a língua portuguesa, Juan.

No final do livro, você se despede de Lula. Dessa vez é para valer?

Lula já não existe mais. Hoje em dia, todo mundo sabe que ele é apenas outro Sarney, só que piorado. Acho que dei uma mãozinha para desmascará-lo.

Imagine que o presidente convidava você para um chá ou para outra bebida qualquer. Você iria?

Já tentei entrevistá-lo. O bicho não quer saber de mim. Eu gostaria de encontrá-lo profissionalmente, mas não tenho o menor interesse particular por ele. Considero-o um dos líderes mais aborrecidos do planeta.

Abrindo um pouco mais a conversa: como você observa a política da América Latina --Chávez, Morales e tutti quanti?

Jura que você quer falar sobre essa gente?

Claro. O grotesco diverte-me.

Em excesso, o grotesco enjoa.

Apesar de tudo, seria improvável que Lula seguisse os passos da "revolução bolivariana" de Chávez, não?

Eu sempre reconheci uma qualidade em Lula: ele é maricas demais para se meter numa fria dessas.

E a sociedade brasileira não é a venezuelana, ou é?

Você tem razão: a venezuelana é um tiquinho melhor.

Você tem candidato favorito nas eleições americanas?

Meu preferido é John McCain. Os americanos têm o dever de ajeitar as coisas no Iraque, e o único que capaz de fazê-lo é o velhote.

Meu preferido é Obama, por causa do antiamericanismo mundial. Seria uma lição para o mundo eleger um negro.

Se eu fui demasiado otimista com o Brasil, você está sendo demasiado otimista com o mundo.

E o Brasil? Seria capaz de eleger um negro?

O Brasil seria capaz de eleger uma anta.

Mudando de assunto: você pensa em regressar à ficção?

E quem paga minhas contas?

Bom, você pode escrever colunas e romances.

Não dá tempo. Sou marcha lenta.

A sua ficção, ao retomar a grande tradição satirista européia, parece um corpo estranho na literatura brasileira contemporânea. Você sente isso?

Sinto que é bem melhor pertencer à grande (mas a pequena também serve) tradição satirista européia do que à literatura brasileira contemporânea.

Para um jovem brasileiro com pretensões literárias, que autores você recomendaria?

Leitura é uma questão de afinidade. Depois de esgotar os romances obrigatórios (Quantos são? 300? 400?), o negócio é escolher um filão e mergulhar nele.

Você é regularmente identificado com a "escola Paulo Francis". Você concorda com essa linhagem?

Fui um aluno relapso, mas é claro que estudei nessa escola.

E o que aprendeu com ela?

Como todo aluno relapso, não consegui aprender nada. Mas o professor era ótimo.

O Carnaval está aí: nunca o convidaram para uma escola de samba?

Não. Em compensação, algum tempo atrás, numa tarde de carnaval, pisei num naco de cérebro humano.




João Pereira Coutinho, 31, é colunista da Folha. Reuniu seus artigos para o Brasil no livro "Avenida Paulista" (Ed. Quasi), publicado em Portugal, onde vive. Escreve quinzenalmente, às segundas-feiras, para a Folha Online.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Ciência sob ataque

eis um texto que poderia complementar a discussão sobre o fogo do dedo de deus, do nosso caro Rudah (poderia nosso nobre colega postá-lo aqui).... ademais, como sempre, a Chico's Bar inovando e trazendo dos rincões literários textos para nossa apreciação.


Se eu fosse exagerado, diria que a ciência brasileira está sob ataque. Como não sou, parece mais adequado afirmar que ela vem enfrentando percalços imprevistos. Há duas semanas a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, participou de um evento criacionista e, em seguida, defendeu o ensino de teorias "alternativas" ao darwinismo. Poucos dias depois, reportagem da Folha (só para assinantes) mostrava que cerca de uma centena psicólogos, advogados, antropólogos e educadores procurava, através de um abaixo-assinado, impedir um grupo de neurocientistas de levar a cabo pesquisa que pretende esquadrinhar o cérebro de 50 adolescentes homicidas de Porto Alegre em busca de marcadores biológicos.
Investidas anticientíficas não são propriamente uma novidade, que o digam Giordano Bruno e Galileu Galilei. Mesmo em tempos de maior liberdade intelectual, como a Grécia Antiga, experimentadores do quilate de Eratóstenes e Arquimedes enfrentavam um certo desdém de filósofos puramente especulativos, então mais afinados com o "Zeitgeist". O inquietante no caso brasileiro é que os ataques partam, senão de aliados, ao menos de grupos e instituições que deveriam em tese apoiar a ciência. Afinal, Marina Silva, na condição de ministra, representa o Estado brasileiro. Já psicólogos, antropólogos e pedagogos, embora não costumem militar nas fileiras da "hard science", são --ou deveriam ser-- aquilo que antigamente chamávamos de "Geistwissenschaftler", ou seja, simplificando um pouco, cientistas socais, os quais deveriam, pelo menos etimologicamente, estar comprometidos com o método científico.
Comecemos pelo caso mais gritante, que é o dos patrulheiros epistemológicos. De minha parte, considero a neurociência um campo fértil e promissor, do qual tem emergido muito material interessante para "insights" e reflexões. Admito, entretanto, que nem todo mundo precisa pensar como eu. É perfeitamente possível tachar sociobiologia, psicologia evolutiva e genética como "reducionistas" --o que quer que isso signifique. Mais até, é legítimo preocupar-se com o efeito que determinadas descobertas possam ter sobre a sociedade. Imagine-se, por hipótese, que se desenvolva um método de diagnosticar, ainda antes do nascimento, indivíduos mais propensos a tornar-se criminosos quando adultos. Tais embriões poderiam ser abortados? Se sim, por decisão de quem? Do Estado? Dos pais? São questões apaixonantemente controversas. E, por mais intransigentes que possamos ser na defesa da vida e da pluralidade humanas, nada justifica deixar de realizar um estudo cujos protocolos éticos se mostrem adequados, como é o caso do experimento gaúcho. Ele não implica nenhum risco ponderável para as "cobaias" e só ocorrerá se os pesquisadores obtiverem o consentimento esclarecido dos jovens e de seus pais ou responsáveis e também a autorização da Justiça.
Não é porque os nazistas cometeram atrocidades evocando a genética --equivocadamente, ressalte-se-- que devemos renunciar a compreendê-la. Se um dia investigações nesse campo levarem a tecnologias eugênicas, precisaremos discutir caso a caso a moralidade de sua aplicação. De minha parte, como princípio geral, acho que pais devem poder escolher se vão ou não ter filhos com determinadas doenças incapacitantes.
Qualquer que seja nossa posição pessoal, quer acreditemos que a vida é um dom de Deus, quer a consideremos o encontro inopinado de átomos de carbono com um pouco hidrogênio e oxigênio, não faz muito sentido que um cientista social --ou qualquer outra pessoa minimamente ilustrada-- se oponha à realização de um experimento capaz de ampliar nosso conhecimento por temor das implicações que tal conhecimento possa ter. Se os nossos solertes "Geistwissenschaftler" estão tão certos de que a empreitada dos neurocientistas dará com os burros n'água --possibilidade bastante real-- que critiquem, como convém ao método científico, os resultados do experimento, não sua realização. Se estão tão certos de que a neurociência encerra o ovo da serpente, que o demonstrem com base em evidências e encadeamentos lógicos, não com ilações e palavras de ordem. Minha sensação é a de que essa gente, ao defender a proibição pura e simples, repete os argumentos com os quais a Igreja Católica impedia a dissecação de cadáveres e promovia outros vetos francamente obscurantistas.
Voltemos agora ao mais delicado caso do criacionismo ministerial. Marina Silva tem, como cidadã, o direito de professar a fé que bem desejar. Mais até, não é porque se tornou ministra de um Estado nominalmente laico que precisaria deixar de comparecer aos cultos de sua igreja, a Assembléia de Deus. Ela, entretanto, avançou o sinal quando participou do 3º Simpósio sobre Criacionismo e Mídia, promovido pelo Centro Universitário Adventista de São Paulo, e, à saída, ainda deu uma entrevista na qual, no melhor estilo dos "neocons" dos EUA, sustentou que visões de mundo criacionistas devem ser ensinadas nas escolas, para que os alunos possam decidir por si mesmos.
Estamos aqui diante de dois problemas. Em primeiro lugar, Marina deveria ter-se recusado a participar do evento, pela simples razão de que não foi convidada para falar na condição de simples fiel da Assembléia, ou teóloga, mas sim por ser ministra do Meio Ambiente, ou seja, uma representante do Estado. E, nos termos do artigo 19 da Constituição, é vedado ao Estado "estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança". Essa, entretanto, é a falta menos grave, que seria facilmente perdoável, se a ministra não tivesse em suas declarações abraçado também a pedagogia ultraconservadora, que pretende transformar fatos comprováveis em comprovados em questões abertas a escrutínio religioso.
Não conheço as opiniões hidrostáticas do papa, mas não importa o que ele pense ou decrete acerca da fervura da água, o fato é e será que, em condições normais de temperatura e pressão, ela ferve a 100ºC. De modo análogo, independentemente do discurso religioso, as bases gerais da teoria evolutiva mais ou menos como postulada por Charles Darwin no século 19 estão cabalmente comprovadas. Falácias criacionistas não vão mudar isso. O rol de evidências pró-Darwin é extenso. Vai da totalidade do registro fóssil até aqui coletado --e nunca falseado por nenhum despojo geologicamente impossível_ até a capacidade de fazer previsões sobre o futuro, como o surgimento de cepas de bactérias resistentes a novas classes de antibióticos.
O criacionismo em sua mais nova roupagem --o tal do design inteligente-- sustenta que a evolução é "apenas" uma teoria e cheia de supostas dificuldades, como se tudo em ciência não fosse "apenas uma teoria", aí incluída a teoria da gravidade. Seu argumento básico é o de que seres vivos são complexos demais para ter surgido "por acaso": se eu encontro um relógio, a sutileza e a precisão das roldanas e engrenagens, me autoriza a supor um relojoeiro; de modo análogo a arquitetura de estruturas como asas e olhos permitiria inferir um Criador.
"Non sequitur", que, em bom português, significa: é pura bobagem, coisa de quem não entendeu (ou fingiu que não entendeu) o bê-á-bá do darwinismo. Embora mutações nos seres vivos de fato ocorram aleatoriamente, a seleção subseqüente --que conserva o que é útil e despreza o que não o é-- nada tem a ver com acaso. Ela é, se quisermos, o avesso do acaso. Trata-se, na verdade, de um dos poucos processos naturais que conseguem simular o trabalho de projetistas. Só que funciona ao contrário. Ao preservar traços mesmo que milimétricos de utilidade e descartar todas as mutações que não servem para nada (a maioria delas resulta em cânceres, é oportuno lembrar), a seleção consegue, ao longo de inúmeras gerações, produzir estruturas que passam por entidades concebidas por uma inteligência.
O que o criacionismo faz é, apoiando-se nessa ilusão, impingir raciocínios capengas que soarão convincentes a alunos com pouco treinamento epistemológico e já socialmente orientados a "aceitar a palavra de Deus". Admitir que padres e pastores profiram tais sandices em epistemológicas em seus templos é uma necessidade democrática. Mas não faz nenhum sentido repeti-las nas salas de aula de um Estado laico. Fatos sobre o mundo não são matéria que se decida com base em convicções pessoais ou maiorias.
E, infelizmente, os neocriacionistas não se contentam em acreditar em Deus. Querem, sabe-se lá por qual motivo, revestir seu delírio de vestes científicas. Só que estas não lhe cabem.
O grande erro da comunidade científica norte-americana foi ter esperado tempo demais antes de reagir às investidas criacionistas, deixando que o discurso pseudocientífico e aparentemente democrático prosperasse e ganhasse terreno. Infelizmente, nós, no Brasil, estamos repetindo esse equívoco. Vale lembrar que o pio casal Garotinho já introduziu o ensino do criacionismo nas escolas da rede pública do Rio de Janeiro. Consertar as coisas agora será um deus-nos-acuda.
Não deixa de ser irônico que os mesmos sociólogos, advogados e psicólogos que até há pouco se erigiam em defensores máximos das liberdades agora propugnem pela censura a pesquisas, e os mesmos religiosos criacionistas que poucos séculos atrás queimavam livros e pessoas agora recorram à liberdade de pensamento para apregoar tolices na escola pública. Não acredito em deuses, mas, é forçoso reconhecer que eles têm um senso de humor infernal.
Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

A Holanda e a maconha

Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.


A relação da Holanda com a maconha é surpreendente. Trata-se provavelmente do único país do mundo em que um chefe de polícia vai a público defender as virtudes da Cannabis. Chega a sugerir que os "hooligans" ingleses, a herança bárbara de Albion, não provocaram grandes incidentes durante a Eurocopa disputada nos Países Baixos, porque, em vez de se embebedar-se, fartaram-se em vapores fumívomos. A Holanda proibiu o álcool nos estádios, mas liberou o consumo de maconha e haxixe.

A correlação entre abuso de álcool e episódios de violência está de fato bem documentada na literatura médica. Em relação à Cannabis, a coisa é mais complicada. Usuários em geral louvam suas propriedades tranquilizantes e alguns estudos, inconclusivos, procuram até ligá-la à síndrome amotivacional. De qualquer forma, parece haver alguma licença poética em conferir-lhe uma "vis pacificatoria" ("virtude pacificadora"). Na medida em que o cânhamo, como o álcool, provoca euforia, pode levar alguém a sentir-se mais poderoso do que realmente é e dar uns tapas na mulher ou provocar a torcida adversária. Aqui, mais do que a droga, prevalecem o indivíduo e a situação.

Vale destacar que a palavra "assassino" vem do árabe "hashishiyn", a designação de uma seita ismaelita xiita da Síria do século 12, cujos integrantes fumavam haxixe (daí o nome "hashishiyn") e depois, em meio a visões do paraíso, matavam seus inimigos com notável habilidade.
O fato é que há na Europa, como a Folha mostrou no último domingo, uma tendência liberalizante nas políticas antidrogas, liderada pela Holanda e pela Suíça. O fracasso da abordagem repressiva é eloquente. Nos EUA, o país que mais enfatiza essa estratégia, dos 2 milhões de encarcerados no sistema penal, 23% foram condenados por crimes relacionados a drogas, a metade por posse. Os bilhões de dólares gastos anualmente não se traduzem em diminuição do consumo, que só faz aumentar.

Descriminar as drogas não é um plano de perigosos comunistas para solapar as bases da família e da propriedade. A idéia é defendida, entre outros, por economistas da Escola de Chicago, espécie de meca do ultraliberalismo.

Na análise destes solertes cientistas, existe uma espécie de imposto associado ao ilícito. Sendo as drogas ilegais, pode-se cobrar mais por elas. Daí o imenso poder financeiro dos traficantes e toda a violência e corrupção que lhes podem ser imputadas. Na legalidade, os entorpecentes poderiam representar um item de despesa a menos e uma fonte a mais de recursos para o Estado, eventualmente até para combater a epidemia mais adequadamente.

Essas teses são muito sedutoras, mas, se me fosse dado o poder de decidir sobre a descriminação, pensaria 327 vezes antes de adotá-la.
Para ter uma idéia do problema que se poderia estar criando, vale a pena dar uma olhada em algumas estatísticas. Uso as americanas que são mais confiáveis. Lá, cerca de 90% da população consome álcool; de 10% a 20% dos homens e de 3% a 10% das mulheres desenvolvem problemas crônicos relacionados ao abuso dessa substância. A cocaína é utilizada com frequência mensal por apenas 0,6% dos norte-americanos (dado de 1993). Não é preciso ser nenhum Einstein para concluir que uma eventual liberação aumentaria a quantidade de usuários e, consequentemente, a de pessoas que desenvolvem dependência. E há uma diferença significativa entre um problema que atinge menos de 1% da população e outro que pode afetar 20%. O indivíduo saber que a droga faz mal à saúde é uma barreira frágil, como se vê no caso dos fumantes (20% dos brasileiros, segundo o IBGE, entre os quais modestamente me incluo).

Não pretendo, com esses números, sugerir que a estratégia liberalizante européia está errada. Acho até que está certa. Do ponto de vista exclusivo da saúde pública, liberar as drogas provavelmente é uma "defaecatio maxima" ("baita cagada", numa tradução livre). Mas, diferentemente do que impõe a mentalidade higienista hodierna, há aqui uma questão filosófica que não é menos importante: é função do Estado impedir que cidadãos no pleno gozo de suas capacidades jurídicas e mentais façam mal a si mesmos? Sinceramente, acho que não.






domingo, 20 de janeiro de 2008

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Divagações noturnas

Enquanto isso, na bat-caverna... Dois pensamentos me vêm à mente, na verdade três: dois de cunho gramatical e um sobre alguma divagação qualquer. Primeiro, o hífen do bat-caverna, sempre tive dificuldades com desconhecidas palavras compostas; segundo, o acento circunflexo de vêm, que demonstra uma vergonhosa ignorância sobre as conjugações do verbo vir e ver – realmente deplorável, mas com solução simples; e por fim, se escrever de forma que não resulte em algo que pareça fruto de um esforço muito grande seria o ideal.

E para completar, fazendo com que sucedam-se de forma involuntária novas coisas à minha mente aumentando o números de problemas, me vem à mente – sim, eu sei a conjugação do verbo vir de forma intuitiva ao menos (meu problema é com o ver e os malditos e que se duplicam e que devem ser acentuados), e sim, minha mente está propensa a expressar-se hoje – que poderia escrever menos pela via negativa e mais pela positiva, ora pois. Seria vício de um estudante mal sucedido de filosofia que um dia ouviu falar da tal via negativa e se apegou a ela de maneira a-crítica? O meu caro amigo editor de texto me diz em vermelho que a-crítica não tem hífen, que seja. Não dar-me-ei o trabalho de corrigir, façam mentalmente vocês. Usar dos verbos de maneira pomposa seria um sintoma da escrita vaidosa do escritor que voz enche a paciência com indagações deste gênero? Para usar verbos de maneira pomposa entenda-se dúvida de chamar o dar-me-ei por mesóclise, confesso mais uma vez ignorância; e não sei se alguém com este tipo de dúvida poderia se auto denominar (malditas palavras compostas) escritor, a não ser pelo mero ato de escrever algo, como um palavrão no muro da escola.

Bom, diria certo filósofo alemão que cabe aos tolos perguntar sem necessidade. Tolice por tolice, o que seria dos cronistas se todos quisessem filosofar?

Mas antes que me enrole em mais perguntas, creio que poderia fugir da via negativa e no lugar em que escrevera escrever de forma que não resulte em algo que pareça fruto de um esforço muito grande poderia ter perguntado somente se seria melhor escrever de forma simples. Mas se o fizesse de certo perderia a rede que tece o conceito simples, o que não implica que de fato tenha alcançado eu esta rede – talvez parte dela. Por exemplo, quando se diz eu te amo ocorre o problema da massificação dos sentimentos nobres. Dize-se eu te amo de forma voluntária em relações superficiais com a finalidade única de ter alguém, nem sempre qualificado para tal, ao lado. Agora, um eu te amo emoldurado numa bem escrita carta de amor, objetivando razões para o amor e desamor, propondo em bases argumentativas todo o bem querer para o querer amado, aí sim, por mais que não haja profundidade na relação haveria uma tentativa nobre de expô-la aos olhos do outro e, por intuição, arrisco-me que a própria superficialidade seria tema de uma carta nesse caso – houve uma procura pelo entendimento daquilo que é, eis o importante.

Como? Não entendi a pergunta... Ah, seu eu já disse eu te amo? Sim, sim... Se eu já o disse de maneira leviana? Claro! Todos fomos jovens um dia, e colocamos o coração na ponta da língua. Mas com o tempo a retórica começa a servir para outras coisas, e o coração passa a se expressar de outras formas.

Poderiam afirmar-me contraditório: numa hora propõe cartas de amor, noutra o silêncio e formas ocultas de demonstração de afeto. Bom, seria acusação de pouca monta. Eis que as cartas de amor são representações interessantes do eu te amo enquanto frutos de um esforço para se compreender o que se quer dizer, mas não são necessariamente necessárias para se provar alguma coisa. É um critério de exclusão: você pode expressar-se ou não com um eu te amo, a escolha é pessoal – como se eu precisasse lembrar disso, o senhor redundância – mas se a opção for pela expressão, faça-se direito, entendido?

De forma análoga o simples poderia ser dito, mas o que quereria dizer? As palavras devem ser pensadas, degustadas, sentidas. Aqueles que o fazem leriam estas linhas? Provavelmente não. Isto aqui está mais para um manual de quinta de como proclamar a libertação da superficialidade dos tempos vigentes cujo endereçado não é ninguém menos do que este que vos fala do que para um texto que tanja a sensibilidade humana de forma universal. Percebo agora que nem a pretensa humildade que coloco neste texto o salva da mediocridade, como se dessa humildade um gênio vos falasse. Mas fazer o quê? O blog é meu e a merda é essa mesmo – afirmo-me perante o mundo quando insurge contra mim o pensamento que grande coisa um blog! Jura que você tem um? É amigo, a coisa está feia por estes lados.

Pois bem, continuemos a discorrer sobre a natureza do simples (tem alguém aí?). Como hoje tudo se consome muito rápido houve natural propensão ao desgaste da boa leitura, sendo que muitos conceitos não têm significação profunda para as pessoas. Se sintam à vontade para perguntar por que raios eu deveria buscar profundidade ou a razão da minha existência no conceito de simples, composto, cachorro-quente (quando se conhece a palavra os compostos são bem melhores) borboleta, roxo, fada, etc? Para mim, a vida está cada vez mais rápida e automatizada, sem controle sobre nosso agir no mundo e sem tempo suficiente para que relações se concretizem, palavras adquiram valores e para que se possa compreender o próximo. A linguagem é uma linguagem simples, rasa, reservada ao atendimento das nossas necessidades mais baixas – a terceira classe de homens de Platão viria a calhar aqui. Quando tudo é acessível a todos há algum problema. Eu ou você temos em mente tornarmo-nos celebridades, não é? Quem não faz pose para foto do click do gato, ouve a música da moda até aparecer a nova melhor música (tem como não pensar em titãs?) ou não se pega em testes do tipo “que pessoa de tal seriado você é” ? Quem nunca se imaginou um “grande irmão”, comprou o celular fodástico e caprichou naquele perfil de orkut?

Massificação, eis o problema. Para mim cada vez mais há muito do mesmo, pessoas querendo se destacar de alguma forma na multidão com as ferramentas que o sistema nos dá. Ficou fácil parecer feliz aos olhos do mundo. Ficou fácil parecer infeliz também – veja só os malditos emos, a personificação poser do universo. Ficou fácil demais parecer alguma coisa e ter a noção de que se é algo para alguém, mesmo que seja do outro lado da tela do computador, e que esse ser não passe de palavras vazias de vivência. Afinal, finita uma relação deste gênero, uma outra é provável; diria melhor: inúmeras outras são prováveis.

E nesse contexto palavras como amor ou simples não tem grande diferenciação. Ambas serão usadas, não necessariamente compreendidas. E aqui um parênteses para um ato de desagravo à Lingüística e sua relativização das palavras – amor não é o que um adolescente imbecil escreve em sua página pessoal para os mais variados tipos de receptores, apesar de considerar este tipo de imbecilidade em certos aspectos aceitáveis para adolescentes. O que é o amor? Não sei dizer, sei o que não é... eis minha via negativa.

Bom, por hoje cansei. Se me conheço bem, acharei algo a acrescentar aqui daqui a alguns meses. Mas isso não é importante. Ou é. Vai saber né?

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

A pedidos

Conforme pedidos que recebi (foram milhares .....rsrsrsrs)

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sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

up

Gostaria de começar desejando um ano repleto de realizações ao blog, seus colaboradores e visitantes.

O blog já conta com muitos posts, sobre assuntos diversificados. Acho que seria a hora de formar uma identidade para o mesmo, não sei se é essa a expressão correta, mas o que quero dizer é que acho ser esse o momento para que sejam estabelecidos criterios para a postagem no blog, para que o mesmo faça jus a seu nome.

Não sei se é uma boa idéia, espero que comentem!